Páginas de Sensação: Literatura Popular e Pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924) – Alessandra El Far.
Literatura, desejo e leitura no Rio de Janeiro
Páginas de Sensação: Literatura Popular e Pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924), de Alessandra El Far, investiga um universo pouco convencional da história cultural carioca: os livros populares, romances de sensação e publicações eróticas que conquistaram leitores entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX.
Publicado pela Companhia das Letras, o estudo acompanha a circulação dessas obras em uma cidade que ampliava seu mercado editorial e seu público leitor.
Dessa forma, a autora não investiga apenas o que os cariocas liam. Ela observa também como os livros eram produzidos, anunciados, vendidos e consumidos.
Os “livros baratíssimos” conquistam as ruas
Nas últimas décadas do século XIX, livreiros do Rio de Janeiro anunciavam edições populares vendidas a preços acessíveis.
Havia obras didáticas, peças de teatro, almanaques, manuais, histórias curtas e livros infantis. Entretanto, nesse movimentado mercado também circulavam publicações consideradas impróprias pelas parcelas mais conservadoras da sociedade.
Entre elas estavam os chamados “romances de sensação” e “romances para homens”.
Os primeiros exploravam aventuras, crimes, mistérios e acontecimentos dramáticos. Já os segundos apresentavam narrativas de caráter erótico ou pornográfico, desafiando convenções morais daquele período.
Os romances que não frequentavam as estantes “de respeito”
Títulos como Elzira, a morta virgem, Maria a desgraçada e Casamento e mortalha exploravam crimes, tragédias e mistérios.
Outros eram ainda mais provocadores.
O aborto, Os serões do convento, Volúpias, Amar, gozar e morrer, Os crimes do amor, Sensações fortes e Camarões apimentados são alguns dos títulos recuperados pela pesquisa.
Contudo, o interesse histórico dessas publicações ultrapassa seu conteúdo escandaloso.
Por meio delas, Alessandra El Far reconstrói aspectos do imaginário, dos costumes, da moralidade e das práticas de leitura da sociedade carioca.
Literatura popular e cultura de massa
Algumas dessas obras alcançaram grande circulação e podiam vender milhares de exemplares em poucas semanas.
Esse sucesso ajuda a desmontar a ideia de que o universo dos livros no período estava restrito às elites intelectuais.
Ao contrário, existia um mercado interessado em alcançar públicos maiores. Para isso, editores e livreiros recorriam a preços baixos, narrativas atraentes e estratégias comerciais.
Nesse sentido, Páginas de Sensação também contribui para a história do livro, da leitura e do mercado editorial brasileiro.
Livrarias, vendedores e leitores do Rio de Janeiro
A autora acompanha os diferentes caminhos percorridos pelos impressos até chegar aos leitores.
Livrarias tinham papel importante nesse circuito. Além disso, vendedores e mercadores ambulantes participavam da circulação de publicações pelas ruas da cidade.
O livro permite, portanto, observar um Rio de Janeiro não apenas por seus edifícios ou acontecimentos políticos, mas também por aquilo que seus habitantes compravam, liam e desejavam ler.
Esse olhar para as práticas cotidianas transforma os impressos em documentos da vida social.
Moralidade, erotismo e sociedade
A literatura considerada pornográfica ocupa lugar importante na pesquisa.
Por meio dessas publicações, a autora investiga os limites entre o permitido e o proibido. Ao mesmo tempo, analisa tensões envolvendo sexualidade, moralidade e consumo cultural.
O que era considerado impróprio?
Quem comprava essas obras?
Como os livros eram anunciados e vendidos?
Assim, aquilo que aparentemente seria apenas uma literatura marginal torna-se fonte para compreender comportamentos, valores e transformações sociais.
Da literatura popular a Nelson Rodrigues
O estudo alcança ainda as primeiras décadas do século XX.
Nesse percurso aparece, entre outros títulos, Mademoiselle Cinema, de Benjamin Costallat. A obra se tornaria uma referência daquele universo literário e posteriormente seria associada à influência exercida sobre escritores como Nelson Rodrigues.
Desse modo, Alessandra El Far estabelece conexões entre formas populares de leitura, transformações do mercado editorial e caminhos posteriores da literatura brasileira.
História cultural do Rio de Janeiro
Páginas de Sensação insere-se no campo da história dos impressos e da chamada nova história cultural.
Uma resenha acadêmica publicada pela USP destaca justamente essa inserção da obra no estudo de livros, periódicos e folhetins, observando os processos de produção, circulação e apropriação das representações culturais.
A pesquisa foi desenvolvida com documentação localizada no Rio de Janeiro e em Lisboa. Além disso, o volume apresenta material iconográfico relacionado aos impressos estudados.
Uma obra para diferentes pesquisadores
O livro pode interessar a estudantes, professores e pesquisadores de História, Literatura, Antropologia, Sociologia, Comunicação e Ciências Sociais.
Também constitui uma referência para estudos sobre Rio de Janeiro, história da leitura, cultura impressa, mercado editorial, sexualidade, erotismo, literatura popular e Belle Époque.
Sobretudo, a obra demonstra como livros aparentemente marginais podem revelar aspectos importantes de uma sociedade.
Dados da obra
Título: Páginas de Sensação: Literatura Popular e Pornográfica no Rio de Janeiro (1870-1924)
Autora: Alessandra El Far
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2004
Local: São Paulo
ISBN: 9788535905847
Idioma: português
Encadernação: brochura
Temas: História Cultural, Rio de Janeiro, literatura popular, história do livro e da leitura, erotismo e mercado editorial
Estado de conservação
Exemplar seminovo em excelente estado de conservação.
Livro impresso – produto físico. Não é e-book.
Na Livraria Meu Rio de Todos os Tempos, livros sobre o Rio de Janeiro também são formas de preservar as histórias escondidas em suas ruas, costumes e práticas cotidianas. Por fim, Páginas de Sensação recupera um lado provocador da vida cultural carioca e revela o que os leitores procuravam quando saíam das estantes consideradas “de respeito”.
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